As nuvens cinzentas chegavam ligeiras, e se amontoavam no céu antes tão azul, transformando o dia tão claro em cinza pálido.
Eu olhava o céu, vendo em cada nuvem uma figura diferente.
Deixava a fantasia ir de roldão, tal qual o vento que já surgia, vindo de longe, forasteiro insolente.
Por enquanto, era apenas brisa suave.
Convinha aproveitar a brincadeira ao ar livre, antes que a chuva que vinha no bojo das pesadas nuvens não se derramasse sobre mim. Sobre o meu mundo que, quase sempre era seco, estéril, em solo vermelho e poeirento.
A chuva benéfica e benfazeja era recebida como benção, e trazia sorrisos aos rostos cansados, envelhecidos prematuramente. Fazia reluzir de esperança as meninas dos olhos desacostumados a apreciar o jorrar dessas gotículas, ao sentir esse ventinho gostoso arrepiando a pele seca e áspera, quase carcaças que lhes recobriam os mirrados corpos.
Ainda lembro, desses dias bem aventurados – malgrado o jeito da vida -, de meninice distante. Dias em que todas as preces eram ouvidas, e o céu derramava de volta ao povo suas lágrimas – sofrimentos e dores vividas na fé e na esperança. Agora, beneficiando o solo que, de tão seco, já estava rachado e quase impermeável, e parecia impossível de se fazer renascer, se fertilizar, voltar à vida.
Entre brincadeiras de roda, de amarelinha, de tantas outras que esqueci no tempo, eu observava o mundo – que conhecia tão bem! - e seus personagens surreais.
Mas, só muitos anos depois, longe dali, em paragens urbanas, já com outras experiências na bagagem, é que pude refletir sobre esse mundo a que pertenci.
Foi assim, conhecendo outros mundos – outras realidades de vida -, que verifiquei como é terrível a desigualdade desses mundos.
Só hoje, após tão longa estrada percorrida, movida por essa ânsia de aprender e aprender (salvo-conduto que me libertou de onde vim), é que sinto tristeza e dó.
Pois antes, nesse meu tempo de meninice, tudo parecia claro e simples, como os muitos dias de sol que permearam minhas brincadeiras infantis.
Da minha infância sem brinquedos de lojas, sem tv, sem vídeos games... sem bonecas, sem nada do que hoje as crianças possam ter, mesmo as mais pobres, eu guardo o precioso tesouro da simplicidade.
Da vida sem artifícios e sem máscaras.
Dela recebi lições memoráveis. Que sempre me guiaram. Que sempre foram setas indicadoras, para que eu não perdesse a capacidade – simples, mas tão difícil de ser encontrada hoje – de ser bravamente feliz, mesmo que o mundo cheio de cinza estivesse. Mesmo que os olhos já não tivessem lágrimas para enviar em suas preces aos céus.
Tempo feliz...
Agradeço ser fruto da terra seca – onde nasci.
domingo, 17 de maio de 2009
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